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Digital ou virtual? Do que, realmente, estamos falando?

Digital e virtual não são sinônimos. O digital diz respeito aos sistemas de informação digitais. O virtual é uma significação, uma representação mental.

Ao fazer uma compra online, você acessa uma “loja virtual”? Não exatamente. Em rigor, você acessa uma plataforma que cria uma representação de um estabelecimento comercial por meio de recursos digitais, como sites, aplicativos e imagens. As suas compras, porém, não são virtuais, elas são reais, tangíveis, pois há uma empresa por trás disso, com produtos e serviços também reais.

Da mesma forma, não podemos dizer que as relações construídas e mantidas nas redes sociais são virtuais, mesmo quando elas se restringem a comentários, chats e videoconferências. Por trás dos usuários, existem pessoas se relacionando, de fato. As plataformas são apenas um meio.

Por outro lado, o saldo em nossas contas bancárias, por exemplo, é virtual. Não existem equivalentes físicos, como propriedades ou ouro reservados, como se fazia no passado. Além disso, o dinheiro dos correntistas está constantemente sendo aplicado em diversos tipos de investimento, apenas uma fração desse montante é disponibilizada para eventuais saques. Desde que todos não resolvam sacar todo o seu dinheiro de uma só vez, o sistema funciona.

Tudo isso parece um jogo de linguagem, e realmente é. Entretanto, quando separamos o digital do virtual, logo se nota que esse último é algo muito mais abrangente, abstrato e pessoal. Vamos refletir um pouco sobre isso?

O que torna algo digital?

Todos os conteúdos, serviços e sistemas digitais se resumem a longas sequências binárias. Dígitos (daí o termo digital) cuja ordem define esse universo de soluções hoje disponível, das músicas que você ouve no streaming às transações financeiras que faz pelo aplicativo do seu banco.

Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, muitas organizações se posicionaram como “empresas digitais”. Entretanto, seria mais correto dizer que essas empresas adotam processos digitais, afinal, a operação de qualquer negócio depende de inúmeras tarefas e pessoas que são muito mais do que códigos binários.

O mesmo vale para “cidadãos digitais”, “relações digitais” e tantos outros termos bregas que quase sempre aparecerem nos discursos corporativos atuais.

O digital é um produto da tecnologia digital, não apenas os dispositivos, mas toda a estrutura que viabiliza esses serviços, dos extensos cabeamentos de telefonia e fibra óptica espalhados ao redor do mundo aos sinais elétricos que os percorrem constantemente. Nenhuma organização ou pessoa se “digitaliza” simplesmente por usar esses recursos.

O que é virtual?

Típica palavra que, de tão difundida (e mal empregada), tornou-se banal. Por ser frequentemente adotada em termos nos quais o “digital” funcionaria melhor, como reunião virtual, aula virtual e tantos outros, o virtual, de fato, foi ofuscado.

O filósofo francês Pierre Lévy ficou conhecido em todo o mundo por abraçar essa discussão em sua obra “O que é o virtual?”. Ele esclarece que, embora a palavra quase sempre seja associada à computação e à internet, ela não trata realmente disso. Smartphones, sites, aplicativos, servidores e, claro, pessoas, tudo isso é absolutamente concreto.

O virtual diz respeito ao imaterial, é uma significação, explica o filósofo. A experiência virtual (ou mundo virtual) começa pela linguagem, estritamente na informação semântica, ou seja, a significação que atribuímos às palavras, aos seres e às coisas.

Costuma-se dizer que a vida contemporânea é excessivamente virtual, mas essa afirmação é equivocada. O ideal seria dizer que as nossas vidas hoje estão mais “digitalizadas”, ou estão sendo mais dedicadas a serviços digitais, para ser perfeito. O virtual, por sua vez, faz parte da experiência humana desde os tempos das cavernas. Nossos pensamentos são virtuais!

Pare um instante para refletir sobre as marcas, as percepções de status ou crenças. Pense nos nomes que atribuímos a períodos, acontecimentos ou objetos. Tudo isso só existe dentro das nossas cabeças. Enxergamos o mundo por meio de significações, uma profunda experiência virtual!

O virtual é irreal?

Você não pode tocar o virtual, mas isso não o torna irreal. Por ser intangível, o conceito é comumente tratado como o oposto do real ou daquilo que, supostamente, existe. Essa oposição indevida é o que mais dificulta a compreensão da palavra.

É claro que poderíamos ir ainda mais longe, embarcando em uma jornada filosófica e nos questionando sobre que é real. Entretanto, seja a realidade algo transcendental, seja ela o mero produto de fenômenos físicos, materiais e sociais, o fato é que tudo aquilo que frequentemente taxamos como virtual faz parte da nossa experiência.

Ninguém abandona a realidade ao usar o Instagram, o YouTube ou o WhatsApp. O virtual existe e é frequentemente vivenciado, mesmo quando é induzido por uma simulação digital.

Há quem discorde, claro, e diga que real é somente aquilo que nossos sentidos e nosso cérebro ditam como reais. Entretanto, várias ideias que movem nosso comportamento diário são intangíveis. Se tratamos com naturalidade tantos conceitos essencialmente virtuais, como status, sucesso, fama e felicidade, por que o virtual, quando inspirado pelo digital, nos desperta tanto estranhamento?

Como separar o virtual daquilo que é concreto?

O virtual é, por princípio, uma significação, uma ideia atribuída. É tudo aquilo que se pode compreender e experimentar, mas não se pode ver, sentir ou tocar. O concreto, por sua vez, seria o tangível, aquilo que se percebe pelos sentidos.

Pense no tal “sexo virtual” e como esse termo não faz sentido. Embora os participantes não estejam interagindo fisicamente, o sexo acontece de fato, é uma experiência concreta. Vários elementos de uma relação, inclusive, podem ser compartilhados pela internet por meio de sons e imagens.

O mesmo vale para quem se masturba vendo uma imagem ou um vídeo pornográfico. As pessoas estão consumindo um conteúdo digital e criando imagens virtuais em suas mentes, mas a experiência sexual, ainda que individual, é concreta.

O mesmo estranhamento é percebido nos termos “compras virtuais”, “aulas virtuais”, “reuniões virtuais” e tantos outros. Ao fazer uma reunião de trabalho por videoconferência, por exemplo, embora as pessoas estejam se comunicando por meios digitais, a reunião ocorre, de fato, não é virtual.

Estamos vivendo uma revolução virtual?

Há uma crescente preocupação em relação ao uso constante da internet e as implicações disso. Muito se fala que o “mundo virtual” é hoje mais importante que o “mundo real” para as pessoas.

Na realidade, o que mudou nos últimos anos foi o expansão e a abrangência das tecnologias digitais. O virtual, por outro lado, não depende de computadores ou sistemas de informação.

Sabemos que o mundo passou por uma Revolução Digital (também chamada de Terceira Revolução Industrial). Esse grande salto econômico iniciado nos anos 1950 foi desencadeado pelo desenvolvimento e pela distribuição em massa de computadores e sistemas digitais.

Mas e quanto ao virtual? É possível que estejamos vivendo uma “revolução virtual”?

Pierre Lévy destaca que as plataformas digitais são capazes de manipular os signos da linguagem, as duas esferas essenciais dos elementos: significante (tangível) e significado (o conceito, o abstrato).

O que há de tangível por traz dos sites e aplicativos são os já mencionados códigos que orientam o comportamento e a exibição das aplicações e a infraestrutura tecnológica que os torna funcionais. O significado produzido por eles, entretanto, pode assumir inúmeras formas e criar as mais diversas experiências virtuais.

A mente não depende de computadores para criar conceitos e interpretações, mas os conteúdos digitais e a internet podem estimular a criação de novas ideias e percepções.

As empresas, por exemplo, perceberam que personificar suas marcas pode aumentar significativamente o envolvimento do público. O interessante é que, mesmo sabendo que por trás dos avatares há apenas sistemas de Inteligência Artificial ou funcionários indiferentes, a interação com essas “falsas entidades” é tão verdadeira para as pessoas quanto uma conversa com uma pessoa real.

Hoje, as pessoas são frequentemente julgadas com base em seus perfis e suas postagens nas mídias sociais, as suas representações digitais na internet. Avaliam a personalidade, o comportamento, as habilidades e até o caráter das pessoas por meio de informações, em sua maioria, superficiais.

Outro fenômeno que chama a atenção é o suposto “fim” das barreiras geográficas. Com a possibilidade de se conectar com dispositivos em qualquer lugar do planeta e em tempo real, compartilhamos a sensação de viver em um mundo sem distâncias, se não um mundo indiferente à presença no qual todos estão em todos os lugares e, ao mesmo tempo, não estão.

Já falamos da nossa relação com o dinheiro e com as compras online, experiências que se transformaram completamente com a introdução massiva de recursos digitais. Da mesma forma, o serviço delivery impactou profundamente a percepção de inúmeros indivíduos, especialmente após a pandemia.

Imagine o que sentiria um ser humano isolado, acostumado a dedicar várias horas do seu dia para caçar e se alimentar minimamente, ao nos testemunhar obtendo comida farta com poucos toques e sem precisar sequer levantar, se não para receber o lanche na porta?

Todos essas possibilidades, quando inseridas na rotina, mudam a interpretação das pessoas sobre esses eventos. O “nosso mundo virtual” está se transformando com a tecnologia!

A presença do digital é tão marcante na contemporaneidade que é cada vez mais difícil distinguir o online do offline no cotidiano. A fusão desses dois mundos é capaz de fazer com que os dispositivos se tornem extensões do nosso corpo, algo interessante em termos de avanço tecnológico, mas preocupante diante do fato de nos tornarmos dependentes de ferramentas nem sempre úteis ou saudáveis.

Se uma revolução, por conceito, é algo radical que implica mudanças profundas a nível social, econômico, político, cultural ou tecnológico, acredito que estamos vivendo sim uma espécie de revolução virtual. Como dito, o virtual faz parte da experiência humana de forma intrínseca, mas é inegável que estamos nos aproximando de um novo estágio nesse abstrato universo de percepções.

Sem querer apelar para ficções ao bom estilo Matrix, o fato é que nossas vidas nunca foram tão virtuais. Nunca fomos são dependentes de cenários e experiências virtuais. E isso não é, exatamente, culpa das inovações tecnológicas. É mais provável que o ser humano tenha desenvolvido a tecnologia, tal como ela é hoje, justamente para explorar ao máximo a sua capacidade de virtualização.

Eternos amantes do abstrato — da felicidade, do amor, da realização e de tudo aquilo que não se pode tocar e que sempre inspirou as mais grandiosas obras e feitos —, talvez tenha sido esse o nosso intuito desde o princípio: criar um mundo no qual o digital, o virtual e o concreto se confundem.

Por Leandro Abreu

Produtor de conteúdo com treinamento e experiência em Redação para Inbound Marketing, Storytelling, SEO (essencial, técnico e avançado), planejamento de Marketing de Conteúdo, bem como em criação e gerenciamento de sites WordPress. Me encontre no LinkedIn.

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